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Edson Pratti Advogados
Cobrança

Como cobrar um cliente inadimplente: os caminhos legais para a empresa

Notificação, protesto, execução ou ação monitória? Veja como escolher a via de cobrança certa e quais prazos a empresa precisa respeitar.

OAB/ES 23.540Atualizado em 6 min de leitura
Calculadora e caneta sobre um caderno vermelho

Cobrar um cliente que não paga é uma das tarefas mais desgastantes para o empresário. O erro mais comum é insistir por meses na cobrança informal enquanto o prazo para cobrar corre. A boa notícia é que a lei oferece vários caminhos, e a escolha certa depende de três perguntas: que documento você tem, quanto tempo passou e o que o devedor possui.

Qual documento define a via de cobrança?

O tipo de prova que a empresa tem é o que define o caminho: título executivo permite execução direta; prova escrita sem força executiva leva à ação monitória.

Documento Via mais indicada
Cheque, nota promissória, duplicata aceita ou protestada, contrato assinado pelo devedor e por duas testemunhas Execução de título extrajudicial (art. 784 do CPC)
Mensagens, e-mails, orçamento aprovado, comprovante de entrega, contrato sem testemunhas Ação monitória (art. 700 do CPC)
Nenhuma prova escrita Ação de cobrança comum, com outras provas

A execução é o caminho mais rápido, porque o juiz já parte da existência da dívida e o devedor é citado para pagar em três dias (art. 829 do CPC). A ação monitória serve para quem tem prova escrita, mas sem força de título executivo: o juiz manda o devedor pagar em 15 dias (art. 701) e, se ele não pagar nem se defender, o documento se converte em título judicial.

Qual o prazo para cobrar uma dívida?

Depende do tipo de dívida e do documento. Passado o prazo de prescrição, a dívida não pode mais ser cobrada judicialmente por aquela via. Alguns prazos importantes:

  • Dívidas líquidas constantes de instrumento público ou particular: 5 anos (art. 206, §5º, I, do Código Civil).
  • Cheque: a execução prescreve em 6 meses, contados do fim do prazo de apresentação (art. 59 da Lei 7.357/85). O prazo de apresentação é de 30 dias, se o cheque for da mesma praça, ou de 60 dias, se de praça diferente (art. 33). Depois disso, ainda é possível cobrar por outras vias: a ação monitória do cheque sem força executiva pode ser proposta em 5 anos, contados do dia seguinte à data de emissão (Súmula 503 do STJ).
  • Duplicata contra o sacado e seus avalistas: 3 anos do vencimento (art. 18, I, da Lei 5.474/68).

Por isso, a cobrança informal não deve se arrastar. Se o cliente não respondeu às primeiras tentativas, é hora de formalizar.

Como cobrar sem processo?

As duas medidas extrajudiciais mais usadas são a notificação e o protesto. Elas costumam ser mais rápidas e baratas do que uma ação e muitas vezes resolvem a dívida.

Notificação extrajudicial. Documento formal que informa a dívida, o prazo para pagamento e as medidas que serão adotadas. Ela marca a data da cobrança e muitas vezes já abre a negociação de um acordo.

Protesto. É o ato formal pelo qual se prova a inadimplência de obrigação originada em títulos e outros documentos de dívida (art. 1º da Lei 9.492/97). O protesto torna pública a inadimplência e normalmente leva o nome do devedor aos cadastros de proteção ao crédito. Para muitos devedores, é o incentivo que faltava para pagar.

Notificação, protesto, monitória ou execução: qual escolher?

Cada via tem um momento certo. A tabela abaixo resume quando usar cada uma, o documento necessário e o efeito prático esperado.

Via Quando usar Documento necessário Prazo e efeito prático
Notificação extrajudicial Primeira medida formal, para registrar a cobrança e abrir negociação Qualquer prova da dívida Prazo fixado pelo credor; formaliza a cobrança, mas não obriga o pagamento
Protesto Dívida certa representada em título ou documento de dívida Título ou documento de dívida (cheque, duplicata, nota promissória, contrato) Torna pública a inadimplência e costuma levar à negativação do devedor
Ação monitória Há prova escrita, mas sem força de título executivo E-mails, mensagens, orçamento aprovado, contrato sem testemunhas Mandado para pagar em 15 dias; sem pagamento nem defesa, vira título judicial
Execução de título extrajudicial Há título executivo e o devedor não pagou Cheque, nota promissória, duplicata aceita ou protestada, contrato com duas testemunhas Citação para pagar em 3 dias, sob pena de penhora de bens

Vale a pena usar o Juizado Especial?

Para dívidas menores, sim. O Juizado Especial Cível julga causas de até 40 salários mínimos (art. 3º, I, da Lei 9.099/95) e também executa títulos extrajudiciais até esse limite (art. 3º, §1º, II).

Nem toda empresa pode ser autora no Juizado. A lei admite como autores, entre outros, microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte (art. 8º, §1º, II). Empresas de maior porte precisam usar a Justiça comum.

Por que pesquisar o patrimônio antes de processar?

Porque ganhar a ação não basta se o devedor não tiver bens. Antes de ajuizar, vale levantar informações sobre imóveis, veículos, participação em empresas e atividade econômica do devedor. Na fase judicial, o credor pode pedir a penhora de dinheiro em contas bancárias e de outros bens.

O que é proibido na cobrança?

Quando o devedor é consumidor, a lei proíbe expô-lo a ridículo, constrangimento ou ameaça, e pune quem cobra valor indevido. A cobrança deve ser firme, mas dentro dos limites do Código de Defesa do Consumidor.

  • Constrangimento e ameaça (art. 42, caput, do CDC): na cobrança, o consumidor inadimplente não pode ser exposto a ridículo nem submetido a constrangimento ou ameaça.
  • Cobrança de valor indevido (art. 42, parágrafo único): o consumidor cobrado em quantia indevida tem direito à repetição do indébito em dobro do que pagou em excesso, com correção monetária e juros legais, salvo engano justificável.
  • Crime de cobrança abusiva (art. 71): usar ameaça, coação, constrangimento físico ou moral, afirmações falsas, incorretas ou enganosas, ou qualquer procedimento que exponha o consumidor injustificadamente a ridículo ou interfira em seu trabalho, descanso ou lazer é crime, com pena de detenção de três meses a um ano e multa.

Na prática, ligações excessivas, contato com familiares ou colegas de trabalho e exposição em redes sociais devem ser evitados. Além do risco criminal, podem gerar indenização contra a empresa credora.

Exemplo prático: imagine uma pequena gráfica fictícia que entregou um lote de impressos a um cliente empresarial e não recebeu. Ela tem o orçamento aprovado por e-mail e o comprovante de entrega, mas nenhum contrato com testemunhas. Depois de duas tentativas de contato sem resposta, a gráfica envia uma notificação extrajudicial com prazo para pagamento. Sem retorno, avalia com o advogado a ação monitória, já que tem prova escrita sem força de título executivo, e, por ser microempresa e o valor estar dentro do limite, considera o Juizado Especial Cível. O exemplo é hipotético e serve apenas para ilustrar a ordem das decisões.

Resumo

A cobrança eficiente segue uma ordem: identificar o documento, conferir a prescrição, tentar notificação e protesto, pesquisar bens e, se necessário, ajuizar a ação adequada, no Juizado Especial ou na Justiça comum. Em todas as etapas, a cobrança deve respeitar os limites do CDC. Uma carteira de inadimplentes organizada por tipo de documento e data de vencimento já mostra quais dívidas precisam de atenção imediata.

Perguntas frequentes

Protestar um título tem custo para o credor?

As regras de emolumentos variam por estado. Em vários, o credor não antecipa custos e os valores são pagos pelo devedor ao quitar o título. Consulte o tabelionato de protesto da sua cidade.

Posso cobrar juros e multa do cliente?

Sim, nos limites do contrato e da lei. Em vendas a consumidor com financiamento ou concessão de crédito, a multa de mora não pode ultrapassar 2% do valor da prestação (art. 52, §1º, do CDC).

Microempresa pode cobrar cliente no Juizado Especial?

Sim. Microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte podem propor ação no Juizado Especial Cível (art. 8º, §1º, II, da Lei 9.099/95), em causas de até 40 salários mínimos.

Cobrar um valor que o cliente não devia gera alguma consequência?

Sim. O consumidor cobrado em quantia indevida tem direito à devolução em dobro do que pagou em excesso, com correção monetária e juros legais, salvo engano justificável (art. 42, parágrafo único, do CDC).

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